MÚSICA PARA OS OLHOS

É interessante perceber as mudanças ocorridas na forma de compor música, seja melodia ou letra, no decorrer do século XX. Partimos desde a construção pelos modos mais formais, daquelas advindas dos conservatórios ou até mesmo de autodidatas que compunham muitas vezes também embasados nos grandes nomes da música tida como erudita, que se tornavam populares por meio de tocadores de rua ou realejos. A música em meados do século XIX e no início do século XX realmente caminhava por outros trajetos. Não que a produção musical de hoje seja inferior a de antes, até porque não se tem nem como comparar, são períodos e expectativas totalmente diferentes, além da preferência.

Foi no século XX que muitos ritmos novos surgiram, como o rap, a soul music, o jazz, o funk, o rock, o brega, o arrocha, o zouk, o slam e por aí vai. Isso sem contar com aqueles derivados de outros ritmos, como o pagode, o partido alto, o samba-canção, o samba-enredo, o samba-rock que surgiram a partir do samba; todos esses sertanejos que existem por aí, todas essas subdivisões da música eletrônica que apareceram com a virada da discoteca produzida por meio de aparelhos eletrônicos que simulavam instrumentos melódicos e de percussão, além dos muitos tipos de rocks.

Muito embora o século XIX tenha sido de grande importância na música com o surgimento, mesmo que rudimentar e num formato bem diferente dos que chegamos a conhecer, dos primeiros tocadores de disco. Com o surgimento das primeiras indústrias que, ainda tímidas, produziam discos (cilíndricos!) para serem comercializados (a preços nada módicos, tanto prova que no Brasil apenas D. Pedro II possuíam um tocador desses), e graças a essa reprodutibilidade das obras (que também aconteciam por meio impresso, no caso das partituras), muitas obras se tornaram célebres, fossem elas do século em questão ou mais antigas. A verdade é que o século XIX revelou grandes compositores que se destacaram pela sonoridade vívida e contagiante de um pitoresco Romantismo tardio, como é o caso de Offenbach e Shulbert.

Mas e o que isso tem a ver com o título de “Música Para os Olhos”? Bem, isso é uma análise exclusivamente minha, deixo claro neste instante. Pode ser que haja alguém que simpatize com o meu ponto de vista. Entretanto, também é bem possível que haja aqueles que discordem em número, gênero e grau, o que é completamente aceitável, já que uma das grandes belezas da vida é justamente aquilo que nos torna diferentes uns dos outros. A tolerância também é uma dessas belezas. Mas retomando, hoje o panorama no qual estamos inseridos é obviamente bem diferente daquele de mais de um século atrás. Vivemos um novo milênio. Temos outras percepções, outra educação, outro posicionamento diante da vida em sociedade, da cultura e, consequentemente, da música. Nós mudamos e a música mudou conosco.

Hoje, com todos esses meios de comunicação cada vez mais e mais acessíveis que nos conectam com o mundo inteiro, as fronteiras geográficas e idiomáticas caíram por terra. E na cultura isso não foi diferente. Hoje se pode morar aqui no Amapá e acompanhar em tempo real os shows da Bjök na Ásia, ou o lançamento da Salif Keita na África, assim fácil, fácil. A globalização nos introduziu no multiculturalismo meio que a força e ainda meio sem jeito, muitos de nós tentamos acompanhar. Somos bombardeados de informações o tempo inteiro, e de música principalmente. Hoje o que não falta é programações e canais voltados inteiramente para música, enquanto que nos anos oitenta a MTV reinava só. E com tudo isso, é cada vez mais difícil achar música com qualidade em um meio no qual a quantidade se sobrepõe.

Hoje, para que uma música seja tocada no meio radiofônico, seja por meio das boas e tradicionais emissoras de rádio, ou por meio de canais ou redes sociais exclusivamente voltadas para música na internet, o que menos parece importar é a estrutura da composição musical (e eu não me refiro a construções complexas cheias de armaduras de clave, ligaduras, etc), mas sim a imagem de quem canta ou toca e a desenvoltura ao se expor, além é claro simplicidade acórdica e melódica, as percussões marcantes e as letras clichês. É quase um pré-requisito. Músicas instantâneas que presenciam um sucesso repentino e efêmero e que são esquecidas, tornando-se então descartáveis.

O que me faz refletir que, hoje pra ser bom músico, basta ser bonito… E isso parece bastar.

O NORTE NÃO É COM “M”/ QUEM VAI AO PARÁ PAROU

É indiscutível. Se ultimamente se tem um estado brasileiro que está na mídia na grande maioria das vezes pelas melhores razões possíveis, este estado é o Pará. Não é brincadeira a quantidade de documentários que têm surgido nos últimos anos, e todos abordando o Pará enquanto possuidor de uma cultura e de uma personalidade própria, coisa que tentaram a todo custo durante muito tempo provar o contrário.  E ainda teve gente que caiu. Fomos sabotados por um longo período. Mas felizmente este momento passou e agora o que resta é curtir os louros da vitória.

Durante muito tempo fomos mantidos a parte do país em termos gerais. Como se fôssemos portadores de algum tipo de doença desconhecida, cujo contágio se concretizasse no simples fato de pensar ou lembrar, de reconhecer que o país se estende para bem mais além do que os noticiários mostram, e que a história e a riqueza cultural deste, estas mesmo que estão a perder de vista. Uma pena nem todos poderem enxergar.

Somos resultado de índios, negros e brancos, só aí já tem muita coisa. Geograficamente estamos bem perto do caribe, o que também nos rendeu forte influência musical, cultural e social. De tudo isso temos o carimbo, o síria, o brega e suas diversas versões, o merengue, a cumbia, o calipso, a guitarrada e a marujada. Temos no sangue e no dia-a-dia uma mistura que nos traduz na nossa individualidade enquanto povo. Diferimos-nos do resto do país, mas não por sermos inferiores ou menores, mas por sermos nós mesmos e por termos orgulho disso. Somos Paraenses, Nortistas e não abrimos.

Atualmente o Estado do Pará tem se renovado de maneira assustadoramente rápida no cenário musical. Não que nunca tenha o feito se apresentando de maneira versátil e positiva para o seu crescimento cultural. Pelo contrário, justamente em razão desta produção incansável que existe desde sempre por toda a gama de mestres e músicos que crescemos ouvindo, aprendendo e amando, hoje temos como resultado o florescimento da cena cultural belenense e paraense de agora, com toda a sua riqueza, força e diversidade rítmica.

Nomes como Aíla Magalhães, Felipe Cordeiro, Cabloco, Galera da Laje, Lia Sofia, Gaby Amarantos, entre outros, têm se tornado mais conhecidos e principalmente, reconhecidos, dentro e fora do Pará enquanto figuras atuantes na construção na cena cultural de agora não apenas do Norte, mas do país. Músicos e compositores que compõem o Brasil plural de maneira sólida e igualitária. Sem samplear e sem roubar.  “Quem quiser venha ver”.

SERTANEJOS

Não tem jeito. Para onde quer que se vá só o que toca é sertanejo nas suas mais diversas e recentes versões (universitário, arrocha, pop, etc.). Tem gente fazendo esse novo sertanejo surgindo de tudo quanto é lugar, inclusive de regiões que, aparentemente, não possuem qualquer tipo de relação com a cultura sertaneja. São rapazes e moças novos que despontam todos os dias a nível nacional com hits de rápida e fácil memorização sem que nós, de áreas mais afastadas, tomemos conhecimento, mesmo que superficialmente, sobre como tudo começou.

Como tudo começou mesmo é meio difícil de comentar, pelo menos em um texto curto como esse. Quem sabe talvez em uma outra oportunidade, na qual a cultura sertaneja possa, de fato, ser comentada em toda a sua essência e riqueza de detalhes. Mas o que de fato convém agora é deixarmos esclarecido que o sertanejo, na sua essência primal, pouco se assemelha ao festival onamatopaico que tem fervilhado agora na internet, nas rádios e na tv, pois a música sertaneja, antes, se baseava e se utilizava da vida e dos costumes do sertão, da rotina interiorana, regionalista, de homens e mulheres com um ritmo de vida bem diferente das capitais.

Não muito diferente da pintura e da literatura, a cultura sertaneja evidencia de forma romântica os costumes de figuras como Mazzaropi e Jeca Tatu. Homens de vidas e anseios simples,  peões que depois de um dia duro de trabalho viam na música uma forma de aliviar o cansaço, as dores e os lamentos através de letras que evocavam tais sentimentos e os hábitos corriqueiros unidas à melodias que poderiam variar do melancólico ao alegre.

Não que este sertanejo de agora seja ruim ou inferior, não é isso, pois a idéia aqui não é taxar, criar rótulos e estereótipos musicais e culturais, pois atrelada à música existem muitas outras questões de igual importância. Entretanto, acho importante observar o quanto as coisas se modificam com o passar do tempo. De como o direcionamento da temática sertaneja, assim como muitas outras temáticas de outros ritmos igualmente característicos, mudou no decorrer das décadas. De como a apreciação musical sertaneja mudou.

Hoje as canções sertanejas que nos são veiculadas em nada vislumbram as canções de antigamente. Talvez o peão tenha cansado do campo e tenha se mudado para a cidade e aderido a todas as regalias que esta lhes ofereceu. Poucos focos de grande abrangência ainda restam sobre a cultura sertaneja através de canais de televisão e estações de rádio que parecem não receber a atenção devida, como os programas “Viola Minha Viola”, com uma das maiores representantes ainda viva da música e da cultura sertaneja, Inezita Barroso, e o “Sr. Brasil” com Rolando Boldrin, cantor, humorista e notório contador de “causos”, ambos apresentadores da  Tv Cultura, em São Paulo. Vale a pena conferir.

De resto o de sempre. Canais apresentando os novos nomes e o novo sertanejo.

TUDO VIRA BREGA

Nestes últimos tempos de vida bastante agitada, televisimamente falando, tenho percebido uma crescente e perceptível popularização da música brega. Mas como assim, a música brega, ou simplesmente brega, por si só já não é um ritmo consideravelmente popular na sua essência e direcionamento? Sim ele é, mas não tanto quanto nestes últimos tempos, em que nada parece ser mais “in”, chique e luxuoso do que uma boa dosagem de brega, seja no playlist do celular, no guarda-roupa, nos acessórios, na decoração de ambientes internos, penduricalhos no retrovisor do carro e até mesmo na linguagem desenvolvida no dia-a-dia com os mais diversos grupos de pessoas com os quais nos relacionamos.

É o poder dos vários meios de comunicação que temos a nossa disposição, em especial a web e a TV, que de uns tempos pra cá resolveu engrossar o seu cast transformando em stars um grupo bem seleto que até bem pouco tempo atrás era motivo de indisfarçados risos e gargalhadas, além de alvo de pilhérias e preconceitos que iam bem mais além que a simples questão da preferência musical.O que está em questão aqui não é o que caracteriza ou descaracteriza o termo ou a designação de algo ou alguém brega. O que se pretende é apenas comentar a respeito da repentina e surpreendente ascensão da música considerada brega em suas mais novas roupagens, o “Melody”, o “Techno” e o “Eletro” que, pelo menos em termos de região Norte, são bastantes expressivos entre todas as faixas etárias, raças e classes sociais.

Que o brega é o ritmo da grande massa na região Norte, em especial no estado do Pará (o seu inventor e maior rádio e webdifusor) não é segredo pra ninguém. Claro que as coisas não começaram desta forma que está hoje, e sim com base no que era difundido pela jovem guarda (1964-1968), que com o tempo foi se regionalizando cada vez mais e mais, até a introdução de instrumentos cada vez mais eletrônicos (teclados, pick ups, samplers, simuladores, sintetizadores, etc.). Mas outro aspecto bem interessante e relevante a ser citado são as “traduções” constantemente feitas por DJs, bandas, festeiros e coletivos sempre tão atualizados que muitas vezes são “lançadas” em sintonia com os originais, ou seja, quase ao mesmo tempo!

E foi assim que a musa do tecnobrega surgiu. Ela, Gaby Amarantos, surgiu de uma dessas incontáveis “versões” de todos os dias. E foi com “Hoje Eu tô Solteira”, uma versão tupiniquim/marajoara de “All The Single Ladies” de Beyoncé, que ela, hoje, não menos importante, também uma musa, a “Beyoncé Paraense”, ficou conhecida a nível nacional, com direito a abertura de novela e tudo. Mas eu só me dei conta disso quando sem muita opção do que fazer, zapeando a TV, me deparei com um clipe dela passando na MTV… Maravilhoso!

ONDAS DE PRAZER SONORO

Sempre cultivei o hábito de ouvir rádio. É assim que tomo conhecimento do que toca de novo (mesmo que uma maneira não muito justa) e do que acontece no mundo. Definitivamente detesto televisão, por isso não escrevo sobre ela, e sim sobre música. Meus dias dividem-se entre atividades que envolvam muita música, leitura e atividades manuais. Também não me dou muito bem com atividades físicas, eu sei, é um erro e tudo mais… Já prometi que mudaria de postura e mudarei. Mas o que quero colocar aqui é a força que as rádios ainda possuem apesar do super poder das TVs e da web no cotidiano em que vivemos.

Mesmo com a massificação dos programas televisivos e as atrações dos cyberprogramas as rádios ainda conseguem se manter firme frente à concorrência. Não tenho uma preferência por assim dizer quanto a emissora ou programação, escuto todas. Procuro por músicas e abordagens que me arrebatem os ouvidos e o espírito logo de primeira, como um amor à primeira vista, mas aqui seria à primeira ouvida.

Muito do que costumo ouvir hoje conheci desta forma. Sempre fui uma ávida compradora de cd’s, lp’s e dvd’s, e assim sendo, muitas vezes entrei (ainda entro) nas olhas para comprar coisas pelo que escuto e vejo de primeira. É uma ação arriscada que muitas vezes pode resultar num gasto desnecessário, mas poucas foram as vezes que não gostei do que escolhi, e mesmo quando acontecia, o tempo se responsabilizava em me fazer gostar, seja por identificação ou pelo simples conhecer.

Hoje, depois de um tempo afastada pelo monopólio seletivo dos mpalguma coisa da vida, retornei ao prazeroso hábito de dedicar horas do meu dia a escutar música. Não lembrava o quanto era bom conhecer coisas novas, mesmo que manipuladas. Só assim construo meu senso crítico.

ABSOLUTISMO NA WEB

Na internet quase que (senão) diariamente surge gente de todos os tipos falando e/ou fazendo todo tipo de coisa. O computador tornou-se  indispensável no cotidiano contemporâneo como ferramenta de trabalho, estudo, comunicação, publicidade  e divulgação. Muitas pessoas utilizam a web com o intuito de se auto promover em massa quanto a qualquer coisa em razão do poder e do fácil acesso possibilitado pelo baixo custo dos computadores, pelos planos mais baratos oferecidos e pela própria rede, deu-se a explosão de clipes de baixo custo, vídeos caseiros e os estafantes vlogs.

Mesmo com a super safra desencadeada nos últimos anos, pouco de bom se extrai do todo. Muito do que se vê é baixa qualidade em todos os sentidos possíveis, desde conteúdo, até tecnicismo e orçamento. Claro que não espera-se encontrar superproduções videográficas num espaço gratuito, pois justamente as portas se abrem para aqueles possuidores de condições menores ou nenhuma, mas não é por isso que tudo que se relacione com a liberdade encontrada no espaço se assemelhe a mal-feituras.

Mas até isso também é relativo, afinal os pontos de vistas podem ser infindáveis, o que torna esse conceito, esse pensar, esse entender variável, pois muitas coisas dentro de um único ponto de vista podem variar ao definir aquilo que é ou vem a ser, ou está bom. O desempenho, o entrosamento, a segurança, o investimento, a produção técnica, a direção… Enfim, muitas coisas. Há quem diga que tais aspectos caracterizam um nível mais elevado de produção, o que eu discordo.

Uma única pessoa pode ocupar todas essas funções, afinal o posicionamento do artista contemporâneo é participar de um processo nas suas mais diversas figurações, podendo ir da concepção e do planejamento de uma idéia, até a atuação, a produção e a execução deste projeto. Um multi-artista ou um artista multi, mas aí vai de cada um. Mas há quem prefira designar tarefas para dedicar-se apenas ao estrelato, e mesmo esses merecem uma atenção especial.

Um bom exemplo disso é Stefhany, a Absoluta ou, como é mais comumente conhecida, a Garota do Cross Fox. Ela surgiu há uns dois ou três anos, acredito, com uma versão nada modesta para uma música da Alicia Keys bastante veiculada nas rádios do mundo inteiro, que nas mãos dela, ou melhor, na voz dela se transformou em “No Meu Cross Fox” com direito a clipe e tudo, um hit (acredite quem quiser) que foi cantado em muitos carnavais fora de época pelo país inteiro.

Agora ela não faz mais versões, pelo menos não escutei mais uma sequer, mas sim músicas autorais. Sim, eu acompanho o trabalho sempre que posso, apesar das críticas acho tudo muito interessante e válido. Claro que nem tudo é bom, mas de vez  em quando uma ou outra coisa se destaca. É necessário ainda se passar por um processo de amadurecimento artístico para se alcançar melhores resultados no futuro. Vamos ver o que o tempo dirá.

A BELEZA, A MAGIA E A MARAVILHA DA MUSICA CIRCENSE (27 de Março, dia do circo)

Muita gente já trabalhou a estética (podemos dizer assim) do circo nas músicas. Costumam apresentar um ar mais alegre, mais moleque, mais maroto que deixa muito clara a influência do tipo de energia que costuma rondar o glamour e a fantasia nômade do circo na vida de muita gente. Beatles, Jorge Ben, Chico Buarque, Maria Bethânia, Antônio Nobrega, Nelson do Cavaquinho, Antônio Marcos, Arctic Monkeys, Rolling Stones, Elis Regina, Sidney Miller e tantos outros introduziram em suas músicas, seja na letra ou no arranjo (senão nos dois) um pouco do universo circense que é considerado a oitava arte. Assim sendo, feliz dia do circo!